O estudo BlindGame, realizado em 2024 com 2.028 jovens portugueses entre os 15 é os 34 anos, revelou um número que devia preocupar qualquer pessoa ligada a este setor: 67,6% já apostaram dinheiro. Não estamos a falar de adultos com rendimento e experiência de vida – estamos a falar de jovens, muitos deles menores, que já tiveram contacto com apostas reais. Trabalho neste mercado há nove anos, e se há tema que me obriga a abandonar o tom de analista e assumir o de cidadão preocupado, e este.

Este artigo não e sobre como apostar melhor. E sobre quem não devia estar a apostar de todo – e sobre o que os dados nos dizem quanto a dimensão do problema.

Dados BlindGame e ESPAD: A Dimensão do Problema

Os números do BlindGame são expressivos por si só, mas ganham outra dimensão quando cruzados com outros estudos. O ESPAD de 2024 – o estudo europeu sobre consumo de substâncias e comportamentos de risco entre jovens – indica que 50% dos jovens portugueses de 15-16 anos já fizeram apostas presencialmente. A média europeia e de 45%. Portugal esta acima da média, e a tendência e de agravamento.

Dentro dos jovens que apostam, o BlindGame identificou que 7,3% gastam mais de 100 euros por mes. Para jovens de 15 a 24 anos – muitos sem rendimento próprio – gastar 100 euros mensais em apostas é um sinal de alarme inequivoco. Não e diversao; e comportamento de risco consolidado.

Pedro Hubert, psicólogo clinico e diretor do Instituto de Apoio ao Jogador, colocou o problema em perspetiva de forma cortante: “Temos muitos jovens com 18, 19 anos, com problemas gravíssimos de jogo. E isso quer dizer que não começaram e não ficaram adictos num dia.” O ponto e fundamental – o jogo problemático nos jovens adultos é o resultado de uma exposição que começa antes da maioridade. Quando um jovem chega aos 18 anos com hábitos de jogo enraizados, a maioridade legal não é um ponto de partida – é uma continuação.

Os dados da Linha de Apoio reforçam a urgência: entre 2023 e 2024, os contactos por problemas exclusivamente com jogo online subiram de 39,58% para 48,09% do total. O jogo online esta a ultrapassar o jogo presencial como fonte de problemas – e os jovens são o segmento onde esse crescimento é mais pronunciado.

Fatores de Risco e Acesso ao Jogo Online

Entre os jovens de 18 a 34 anos, 43% usam plataformas ilegais para apostar. Este número e superior a média geral de 40% e diz muito sobre os canais de acesso. Os jovens são nativos digitais – sabem contornar bloqueios de DNS, conhecem VPNs, acedem a plataformas internacionais com facilidade. A barreira tecnológica que o SRIJ tenta impor aos operadores ilegais e, para esta geração, praticamente inexistente.

As redes sociais amplificam o problema. Influenciadores que promovem apostas – muitas vezes em operadores não licenciados em Portugal – atingem audiencias jovens com mensagens que normalizam o jogo como fonte de rendimento. A narrativa do “apostador profissional que vive de apostas” e sedutora e, na esmagadora maioria dos casos, falsa. Mas para um jovem de 17 anos, e convincente.

O acesso ao jogo presencial também merece atenção. Os dados do ESPAD referem-se a apostas presenciais entre menores de 16 anos – o que significa que as verificacoes de idade em pontos de venda físicos não estao a funcionar como deveriam. No online, os operadores licenciados verificam a identidade e idade no registo, mas essa verificação só protege o mercado regulado. No ilegal, não há qualquer barreira.

A combinação destes fatores – facilidade de acesso, normalização social, ausência de barreiras eficazes no mercado ilegal – cria um ambiente onde o contacto precoce com apostas e quase inevitável para muitos jovens portugueses. A questão não e se os jovens vao encontrar o jogo online. E se vao encontra-lo num ambiente regulado, com protecoes, ou num ambiente sem qualquer rede de segurança.

Medidas de Prevenção é o Papel das Familias

A prevenção funciona em três níveis. O primeiro e regulatório: reforço da verificação de idade, combate eficaz ao mercado ilegal, restrições a publicidade dirigida a menores. O segundo e educacional: programas nas escolas que expliquem a matemática das apostas – como as odds funcionam, porque é que a casa ganha sempre a longo prazo, o que são probabilidades. O terceiro e familiar: país e educadores que reconhecem os sinais de alerta e sabem como intervir.

No nível familiar, os sinais de alerta incluem: alteracoes de comportamento (irritabilidade, isolamento, secretismo com o telemóvel), pedidos frequentes de dinheiro sem justificação clara, queda no rendimento escolar ou profissional, e mencoes recorrentes a apostas ou a ganhos faceis. Nenhum destes sinais isoladamente confirma um problema, mas a combinação de vários deve acionar uma conversa – não um interrogatorio, uma conversa.

Os recursos de apoio existem e são gratuitos. A Linha Vida – Jogo Responsável atende chamadas confidenciais. O Instituto de Apoio ao Jogador oferece acompanhamento especializado. Para muitos jovens, o passo mais importante e perceber que pedir ajuda não e fraqueza – é a decisão mais inteligente que podem tomar.

A campanha de sensibilização lançada pela APAJO com diversos grupos de média portugueses foi um passo na direção certa, normalizando o uso de limites de depósito e aposta. Mas a prevenção entre jovens exige mais do que campanhas – exige uma mudança cultural na forma como a sociedade portuguesa olha para o jogo. Enquanto as apostas forem tratadas como inofensivas ou como simples entretenimento, os jovens continuarão a chegar aos 18 anos com hábitos que, para alguns, já serão problemáticos.

Uma Responsabilidade Partilhada

Não tenho solucoes faceis para este problema. Mas tenho a convicção de que quem trabalha neste setor – eu incluido – tem a obrigação de falar sobre ele sem rodeios. Os dados existem, os riscos são documentados é as consequencias são reais. Para uma perspetiva mais ampla sobre como funciona o sistema de regulação que deveria proteger estes jovens, a análise das casas de apostas legais em Portugal detalha os mecanismos de licenciamento e fiscalização em vigor.

Qual a idade mínima legal para apostar online em Portugal?
A idade mínima para apostar online em Portugal e 18 anos. Os operadores licenciados são obrigados a verificar a identidade e idade dos utilizadores no momento do registo, atraves de documentos de identificação oficiais.
Os operadores legais verificam eficazmente a idade dos utilizadores?
Os operadores licenciados verificam a idade no registo, exigindo documento de identificação. No entanto, o mercado ilegal – que representa cerca de 40% da atividade – não realiza qualquer verificação, o que expõe menores que acedem a estas plataformas.