Ricardo Domingues, presidente da APAJO, disse algo que sintetiza o dilema central da publicidade de apostas em Portugal: a publicidade é a única verdadeira vantagem que os operadores licenciados tem sobre os ilegais, é a única forma de o consumidor português distinguir entre o licenciado e o não licenciado, o seguro e o inseguro. Esta afirmação pode parecer auto-interessada – vinda de quem representa os operadores, é natural que defenda o direito a publicitar. Mas os dados dao-lhe razão de formas que o debate público raramente reconhece.

Regulação Atual da Publicidade de Apostas em Portugal

Portugal tem 18 entidades autorizadas a operar jogos e apostas online, e todas podem fazer publicidade dentro dos limites definidos pelo enquadramento regulatório. As regras atuais impõem obrigações claras: inclusao de mensagens de jogo responsável em todas as comunicações, proibição de direcionar publicidade a menores, proibição de apresentar o jogo como solução financeira e respeito por períodos de restricao em transmissoes desportivas.

Na prática, a publicidade de apostas em Portugal e omnipresente. Patrocínios de camisolas na I Liga, publicidade em torno dos campos, spots televisivos durante eventos desportivos, campanhas digitais segmentadas, parcerias com influenciadores. O investimento publicitário dos operadores de jogo online e dos mais elevados do mercado publicitário português, rivalizando com setores como as telecomunicacoes ou a banca.

O regulador – o SRIJ – supervisiona o cumprimento das regras, mas a fiscalização é mais reativa do que proativa. As queixas sobre publicidade excessiva ou inadequada chegam ao SRIJ e são analisadas caso a caso. Não existe um organismo independente dedicado exclusivamente a monitorização da publicidade de jogo, como acontece no Reino Unido com a ASA (Advertising Standards Authority) dedicando recursos específicos a este setor.

O Debate Sobre Restrições: Argumentos Prós e Contras

O debate sobre restrições adicionais a publicidade de apostas é um dos mais polarizados em Portugal. De um lado, associações de proteção ao consumidor e grupos de saude pública defendem restrições mais apertadas – limites horários, proibição de patrocínios desportivos, fim dos bónus de boas-vindas como ferramenta publicitária. O argumento e que a publicidade normaliza o jogo, atinge populações vulneráveis e contribui para o aumento do jogo problemático. Com 40% dos apostadores a usar plataformas ilegais e dados preocupantes sobre jovens e jogo, a preocupacao e legítima.

Do outro lado, os operadores licenciados e a APAJO argumentam que restrições excessivas são contraproducentes. A posição institucional da APAJO é clara: medidas excessivamente restritivas arriscam empurrar os consumidores para plataformas não licenciadas, que já representam aproximadamente 40% do jogo online. Se os operadores legais não podem fazer publicidade, o consumidor perde a única referência visível que distingue o legal do ilegal. Os operadores ilegais, que por definição não cumprem regras, continuarão a chegar ao consumidor através de canais não regulados – redes sociais, influenciadores, links partilhados.

Ricardo Domingues reforçou esta lógica em múltiplas intervenções publicas, argumentando que a publicidade não é apenas promoção comercial – e informação ao consumidor. Quando um operador licenciado aparece num intervalo de um jogo de futebol, com o logotipo do SRIJ visível é uma mensagem de jogo responsável, está a comunicar ao público que existe uma opção legal e regulada. Retirar essa comunicação não elimina o jogo – elimina a opção informada.

Há um caminho intermédio que vários países europeus estão a explorar: não proibir, mas regular com mais granularidade. Restrições horárias (sem publicidade antes das 21h), limites a frequência de spots durante eventos desportivos, proibição de bónus como argumento publicitário principal e obrigação de dedicar uma percentagem do investimento publicitário a campanhas de jogo responsável. Espanha implementou algumas destas medidas; Itália foi mais longe e proibiu toda a publicidade de jogo. Os resultados italianos são mistos – o mercado legal encolheu, o ilegal não.

Um Equilíbrio Que Ainda Não Encontramos

Após anos a observar este debate, a minha posição e pragmática: a publicidade de apostas em Portugal precisa de regras mais finas, não de proibição. Restringir horários, limitar bónus como argumento publicitário e obrigar a investimento proporcional em sensibilização são medidas que protegem sem empurrar o consumidor para a clandestinidade. Para uma visão mais ampla do mercado regulado e dos desafios que enfrenta, a análise completa de apostas de futebol online em Portugal cobre este e outros temas estruturais.

É legal fazer publicidade a apostas desportivas em Portugal?
Sim. Os operadores com licença do SRIJ podem fazer publicidade em Portugal, desde que cumpram as regras estabelecidas: incluir mensagens de jogo responsável, não direcionar a menores é não apresentar o jogo como solução financeira. A regulação permite publicidade mas impõe limites.
As restrições a publicidade podem aumentar o jogo ilegal?
Os dados de outros mercados europeus sugerem que sim. Em países onde a publicidade de jogo foi severamente restringida ou proibida, a quota do mercado ilegal tendeu a aumentar. A publicidade dos operadores legais funciona como referência visível para o consumidor distinguir entre opções legais é ilegais.