A faixa etaria dos 25 aos 34 anos representa cerca de 34% dos jogadores registados em plataformas de jogo online em Portugal. Este número não me surpreende – é o intervalo em que se cruzam rendimento disponível, familiaridade com tecnologia e interesse desportivo. O que me surpreende é a velocidade com que o perfil do apostador português mudou na última década. Quando comecei a analisar este mercado, o apostador tipico era um homem acima dos 35 anos que ia a uma loja fisica colocar uma aposta no futebol do fim de semana. Hoje, e um jovem adulto que aposta pelo telemóvel, muitas vezes ao vivo, em multiplas competições.
Perceber quem aposta em Portugal não e apenas um exercício demografico – é uma forma de entender para onde o mercado caminha e quais os riscos que se acumulam no percurso.
Faixa Etaria e Género: Quem Aposta em Portugal
Os dados do SRIJ e do iGamingToday pintam um retrato detalhado. A faixa dos 25-34 anos lidera com 34% dos registos, mas o segmento de crescimento mais rápido é o dos 18-24 anos, que já representa 31% dos novos registos. Juntos, estes dois grupos compõem quase dois tercos de toda a base ativa. E 79% dos utilizadores de jogo online tem menos de 45 anos. O jogo online em Portugal e, indiscutivelmente, um fenomeno jovem.
O desequilibrio de género e marcante: 27% dos homens inquiridos fizeram apostas online, contra apenas 4% das mulheres. Esta disparidade e consistente com os dados de outros mercados europeus, mas a tendência aponta para um lento estreitamento da diferença – sobretudo no segmento de casino online, onde a participação feminina e proporcionalmente maior do que nas apostas desportivas.
Bernardo Neves, secretário-geral da APAJO, já sinalizou que o mercado esta em processo de amadurecimento é que há caminho a fazer na educação do consumidor. Esta observação aplica-se com particular forca ao segmento mais jovem, que entrou no mercado de apostas online sem a experiência de transição do jogo presencial para o digital – para eles, o jogo sempre foi online, sempre foi rápido, sempre esteve no telemóvel.
O que os dados não mostram com clareza é o perfil socioeconomico. Não existem dados publicos do SRIJ que estratifiquem os apostadores por nível de rendimento ou escolaridade. Mas a concentração geografica – que veremos a seguir – sugere que o jogo online acompanha os centros urbanos com maior poder de compra e maior penetração de internet de alta velocidade.
Distribuição Geografica: Lisboa, Porto é o Resto do Pais
Lisboa e Porto concentram mais de 42% das contas registadas. Este número reflete não só a densidade populacional, mas também fatores culturais e económicos: maior exposição a publicidade de operadores, mais eventos desportivos locais, hábitos de consumo digital mais enraizados.
O interior do país é o sul apresentam taxas de registo proporcionalmente menores, mas o crescimento tem sido mais acelerado nestas regioes – um sinal de que o mercado esta a expandir-se para lá dos grandes centros urbanos. A universalização do acesso a internet móvel é o fator determinante: onde há 4G estável, há apostas online.
O Algarve é uma exceção interessante. Apesar de uma população residente relativamente pequena, a região tem uma cultura de jogo enraizada pela presença histórica de casinos físicos. A transição para o online foi natural, e as taxas de registo per capita no Algarve são superiores as da maioria dos distritos fora de Lisboa e Porto.
Esta distribuição geografica tem implicações para o debate sobre regulação e publicidade. Se a maioria dos apostadores esta concentrada em Lisboa e Porto, as campanhas de sensibilização é as medidas de jogo responsável precisam de intensidade diferenciada – mais alcance nos centros urbanos, mais educação básica sobre regulação e legalidade nas regioes onde o mercado esta a crescer agora.
Evolução do Numero de Contas Registadas
Os números de crescimento são impressionantes. Ate meados de 2025, o número de contas registadas em plataformas licenciadas superou 4,9 milhões. No quarto trimestre de 2024, 4,7 milhões de pessoas jogaram online em algum momento – um aumento de 15% face ao ano anterior. Para um país com cerca de 10,3 milhões de habitantes, estes números significam que quase metade da população tem pelo menos uma conta de jogo online registada.
É necessário contextualizar: ter uma conta registada não significa ser apostador ativo. Muitas contas são criadas por curiosidade, para usar um bónus de boas-vindas e nunca mais utilizadas. O número de jogadores ativos mensais e significativamente inferior ao de contas registadas – embora o SRIJ não publique esta métrica com regularidade.
A trajetória de crescimento, contudo, e inequivoca. O mercado duplicou em termos de contas registadas entre 2021 e 2025. Esta aceleração coincidiu com a pandemia de 2020-2021, que empurrou muitos jogadores presenciais para o online, e com o investimento massivo dos operadores em publicidade e promocoes. A questão para os proximos anos não e se o mercado vai continuar a crescer – vai – mas a que ritmo, e se as estruturas de proteção ao jogador acompanham esse crescimento.
Outro dado que merece atenção: a rotatividade de contas. Muitas plataformas registam taxas de inatividade superiores a 50% após os primeiros três meses. O apostador casual cria uma conta, usa o bónus de boas-vindas e desaparece. O apostador regular representa uma fração muito menor do total de contas, mas gera a esmagadora maioria do volume. Este padrão tem implicações diretas: os operadores investem pesadamente em aquisição (bónus, publicidade) para atrair muitos, sabendo que retêm poucos.
Um Mercado Que Reflete Quem Somos
O perfil do apostador português e, em última análise, um espelho da sociedade digital portuguesa: jovem, urbana, masculina, mobile-first. Conhecer este perfil não é um exercício académico – é a base para qualquer decisão informada, seja como apostador, regulador ou simplesmente como cidadão que quer perceber para onde caminha este setor. Para o panorama completo do mercado, a análise das casas de apostas legais em Portugal complementa esta perspetiva demográfica com dados de regulação e operação.